Mike Wesch, Etnógrafo Digital

Michael Wesch, Professor Associado de Antropologia Cultural na Kansas State University, estrutura suas pesquisas sobre o que ele denomina como Etnografia Digital. Por meio dessa abordagem, ele explora os efeitos das tecnologias digitais sobre a sociedade e a cultura globais. Basicamente, o autor insiste na ideia de que dentro da avalanche de informações propiciada pela Web.2.0, é necessário saber instigar a curiosidade e a imaginação dos estudantes.
Um de seus vídeos, The machine Us/Ing Us, foi lançado em janeiro de 2007 e avaliado como um dos mais vistos desde sempre no You Tube. Aliás, é sobre as comunidades organizadas pelo You Tube que estão focadas algumas de suas pesquisas. Por meio dos vídeos publicados, Wesh concluiu que as pessoas buscam partilhar em seus vídeos uma autenticidade e originalidade que são negadas e frustradas pelos canais de comunicação convencionais existentes. Segundo o antropólogo, existe um impulso em buscar expressão numa sociedade que parece anular esta possibilidade.
Wesch apresenta-nos quatro vídeos que retratam, cada um à sua maneira, aspectos da revolução digital que a sociedade contemporânea vive desde que a Internet se popularizou. Esta popularização da Internet, este acesso à rede das redes por camadas cada vez mais alargadas da população global, traz com ele novas formas de estar e interagir com o mundo, com os objectos, com as pessoas, com as instituições, criando de facto um novo paradigma de sociedade, cada vez mais global e assente em redes de interesses comuns, pela colaboração em prol de um bem comum, e menos caracterizada pelas fronteiras politico-geográficas.
Esta revolução cultural na sociedade é, naturalmente, marcada pelas tensões que se criam entre a mudança e o status quo, entre o risco da inovação e o conforto da imobilidade, entre os navegadores e os velhos do Restelo. As instituições tradicionais, construídas sobre milénios de saber e experiência acumulados, entre as quais a escola, tendem a resistir à mudança. Nos dois primeiros vídeos aborda-se o impacto das alterações no ensino, embora sob dois ângulos diferentes. No primeiro temos a utilização das possibilidades proporcionadas pela internet para a criação de comunidades, para dar resposta de uma forma colaborativa e solidária aos problemas sociais causados pelo aumento avassalador dos custos do ensino superior nos EUA, que levam a graves situações financeiras que impedem muitas vezes a prossecussão dos estudos. O problema dos empréstimos a estudantes nos EUA é uma realidade cada vez mais preocupante, e acções como esta dos estudantes da KSU são prova de que algo pode ser feito, e é cada vez mais a Internet que fornece, pela sua capacidade de interligar pessoas em todo o mundo, o meio para organizar e veicular acções de interesse comum. O vídeo não é só divulgador da acção, é ele próprio uma parte de grande importância da estratégia de angariação de fundos da campanha, e não é dirigido apenas aos estudantes da KSU, mas sim a um público-alvo global. A congregação de esforços em torno de causes comuns é, realmente, uma das marcas da sociedade em rede.
O segundo vídeo aborda a natural resistência da escola enquanto instituição tradicional à mudança, dado que esta é lenta em acompanhar as tendências da sociedade contemporânea. A escola é encarada pelos aprendentes de hoje como um espaço anacrónico, que pouco tem que ver com a sua realidade. Uma aula de hoje não é muito diferente do que era há centenas de anos; o saber é transmitido de forma organizada, compartimentada, magistral, o aprendente continua a ser na maioria dos casos o receptor passivo da informação, numa lógica muito afastada da realidade fora das paredes da sala de aula, onde a informação e o conhecimento estão ao dispôr de quem os procure de forma activa. A educação formal está (como sempre, de resto) em crise, mas nunca esta foi tão marcada como agora. A dificuldade em aceitar e adaptar as novas formas de conhecimento, as tecnologias da informação e da comunicação de forma eficaz e aproximada da experiência do aprendente contemporâneo levam a que seja encarada com algum descrédito e mesmo desdêm. Esta deixa de oferecer uma resposta eficaz, tornado-se cada vez mais irrelevante, consumindo recursos financeiros e humanos avultados e fracos resultados. Como a escola não pode mudar a sociedade, a sociedade terá de mudar a escola, forçando-a a uma adaptação necessária.
No terceiro vídeo o autor contextualiza o fenómeno das comunidades de “vloggers” em redes de partilha de vídeo, sendo a maior delas e, portanto, a que serve de exemplo, o YouTube. Os vlogs são video-blogs (ou video logs), e são algo característico da web 2.0. Comunidades formadas por pessoas de todo o mundo interagem de modo assíncrono mostrando-se em vídeo, falando para quem as quiser ouvir (e ver) sem os constrangimentos da conversa cara a cara, elicitados pela necessidade de utilizar personas para cada situação, pois não possuem modo de conhecer toda a sua audiência. O vlogging enquanto comunidade é também um exemplo de partilha e de colaboração social na rede, e é posto em evidência pela necessidade que as pessoas sentem de, embora focadas em si mesmas de uma forma algo egoista e narcisista, viver em sociedade de uma forma activa. A contextualização do tema é feita através da aposição do paradigma actual ao dos mass media, em que a televisão era o centro de uma cultura em que a audiência era passiva, consumidora de conteúdos, sem qualquer tipo de possibilidade de interação e escolha. Nesse sentido, é muito justificada a frase do autor: “Maybe this new machine will change us for better.”
Partindo do título, a máquina está a usar-nos, podemos conceber que a Internet se assemelha cada vez a uma rede neural, a um simbionte que se incorporou nas nossas vidas, e que nos está a “usar” para crescer, para se tornar cada vez mais massiva, uma consciência colectiva, um super-cérebro que é mais do que a soma da informação nele contida. Cada nova hiperligação “alimenta” a máquina, é uma nova ligação neural que se forma, um novo caminho que abre novos horizontes ao utilizador, que passa de mero leitor, receptor de informação, a agente activo na busca da informação, e também criador de interacções. A mensagem passa a ser, de um modo ainda mais pronunciado do que a intenção de MacLuhan nos anos 60, o meio, e o texto passa a ser dinâmica, aberto, passível de mais exploração. O texto deixa, fundamentalmente, de ser monolítico e passa a fazer parte de um texto global, de um co-texto que existe dentro do contexto global da Internet. O texto passa, no fundo, a hipertexto.

O trabalho de Wesch tem por finalidade a compreensão do modo c a nova dimensão virtual está a alterar a perspectiva que os indivíduos têm de si mesmo e dos outros, e dos novos tipos de realções que estabelecem entre si apoiados nessa nova realidade. As alterações que se estão a dar são profundas, impensáveis há relativamente pouco tempo na história da humanidade, e sem paralelo. Está em curso uma mudança de paradigma a vários níveis, e o trabalho de Wesch revela grande valia ao compreender que, mais do que criticar ou tecer juízos de valor, é necessário descrever e compreender as mudanças que estão efectivamente a acontecer. Estes quatro v´deos sãoexemplos muito válidos da nova realidade: a capacidade do indivíduo superar o seu individualismo e unir-se em causas que considera do seu interesse ou que apelem aos seus valores, mesmo que não conheça directamente os intervenientes, as alterações que se estão (lentamente) a dar na educação enquanto instituição tradicional, as comunidades de vloggers que encontram na web um espaço para partilharem a sua individualidade, as suas idiossincrassias, de um modo que dificilmente poderiam fazer fora desse meio, e a alteração do paradigma da escrita, do texto, da informação, de algo fechado e finalístico para algo aberto, dinâmico e em contexto com todos os outros textos. Etnologia Digital é realmente o nome aproriado para este campo.

LINKS E REFERÊNCIAS

Ciberespaço e Tecnologias Móveis. Processos de Territorialização e Desterritorialização na Cibercultura 1  (Citations: 4)

André Lemos
Resumo: As prática sociais emergentes com as novas tecnologias de comunicação nos colocam em meio a uma cultura da conexão generalizada, engendrando novas formas de mobilidade social e de apropriação do espaço urbano. Processos de territorialização e de desterritorialização estão em marcha, potencializados pelas tecnologias móveis. A noção de desterritorialização é uma constante em textos sobre a cibercultura. O argumento central desse artigo é que as tecnologias móveis não fomentam apenas processos de desterritorialização, mas novas reterritorializações, através de dinâmicas de controle e acesso à informação. Mostraremos que o ciberespaço e as tecnologias móveis criam territorializações em meio à tendência global desterritorializante da cultura contemporânea.

1ª Link : http://www.compos.org.br/data/biblioteca_762.pdf

Comunidades Virtuais  em Redes Sociais na Internet: Uma proposta de estudo.

Raquel da Cunha Recuero
Este artigo trata de um modelo para o estudo de comunidades virtuais como redes sociais da internet. Ele propõe um método de estudo para esses fenômenos, com base no sistema-relacionais teorias Relacional (Bertalanffy, 1975; Maturana e Varela, 2001; Watzlavick, Beavin e Jackson, 2000) e as teorias de rede. Começa a partir de uma definição conceitual de comunidades virtuais (Wellman, 2001 e 2003; Castells, 2003; Rheingold, 1999) e na construção interdisciplinar do concepct de rede social (Barabási, 2003; Watts, 1999 e 2003; Buchanan, 2002; Degenne e Forse, 1999; Scott, 2001). Finalmente, com base nesse debate, a proposta é apresentada em três centros: estrutura, organização e dinâmica da rede e seus elementos de estudo.

2º Link : http://pontomidia.com.br/raquel/seminario2005.pdf

Antonio Miranda
Coordenador do Grupo de Trabalho sobre Conteúdo e Identidade
Cultura, Programa Sociedade da Informação – SocInfo/MCT.
cmiranda@unb.br

Sociedade da Informação: Globalização, Identidade e Conteúdos.

Resumo

Os conteúdos informacionais nas redes eletrônicas são

analisados na perspectiva de seu impacto social e da

promoção da identidade cultural. Considera a penetrabilidade

e capilaridade das teconologias da informação um dos

principais indicadores de desenvolvimento da sociedade da

informação e defende a instalação de pontos de acesso  à

internet em bibliotecas públicas e escolares. Defende também

o fomento à produção de conteúdos, seu registro e difusão nos

âmbitos de governo, da sociedade pelos indivíduos, de forma  a

refletir as diversidades culturais e regionais, urbanas,

periféricas e rurais, assim como o resgate da memória já

registrada em língua portuguesa mas ainda não acessível.

3º Link: http://www.scielo.br/pdf/ci/v29n2/a10v29n2.pdf

Juan de Cicco: You Tube: el archivo audiovisual de la memoria colectiva.

4º Link: http://www.palermo.edu/ingenieria/downloads/pdfwebc%26T8/8CyT06.pdf

Apontamentos metodológicos iniciais sobre netnografia no contexto pesquisa em comunicação digital e cibercultura.
Resumo
Ao definir o papel da netnografia como uma metodologia para estudos na Internet
(Hine, 2000) e como um método interpretativo e investigativo para o comportamento
cultural e de comunidades online  (Kozinets, 1997), o próprio método se traduz como
objeto de reflexão no presente artigo. Abordamos aqui alguns exemplos de uso dessa
ferramenta  metodológica  nos  estudos  em  comunicação  mediada  pelo  computador
(CMC),  assim  como  uma  breve  problematização  sobre  o  papel  e  os  desafios  do
pesquisador nesse contexto.

5º Link: http://www.djangel.com.br/wp-content/uploads/2009/01/AmaralNataleViana.pdf

O último link fica em aberto para pesquisas, como sugestão deixo este da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a FAESP é reconhecida pela qualidade dos trabalhos que financia.

6ª link: http://www.bv.fapesp.br/pt/pesquisa/?sort=-data_inicio&q=%22Cibercultura%22

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