Processos Pedagógicos em eLearning (PPeL) 6: Uma reflexão possível

Vivemos tempos interessantes. Nos últimos 100 anos a produção de conhecimento científico foi tão avassaladora que ultrapassou largamente a soma de todo o conhecimento científico até então produzido. Na prática, todos os campos do saber sofreram evoluções, e a educação não foi alheia a essa tendência. Ao cabo de milénios de edução baseada no paradigma da transmissão unidirecional de conhecimento do professor para o aluno, limitado pelo saber e pelos recursos a que o primeiro tinha acesso, encontramo-nos na realidade do “cérebro mundial” de Russell (Russell, 1984), na qual, por via da revolução tecnológica que levou ao desenvolvimento de tecnologias digitais cujo resultado mais ubíquo foi a Internet, passamos a ter ao nosso dispor uma quantidade avassaladora de informação e conhecimento, pelo que um novo modelo educativo se tornou absolutamente necessário.

Ao longo do último século, e em sintonia com a evolução que se ia verificando, vários modelos de abordagem educativa foram desenvolvidos, com aplicação tanto no campo da educação presencial como no da educação à distância. Todos eles, à sua maneira, responderam ao contexto em que foram desenvolvidos, tendo em conta o conhecimento e a realidade da altura. No entanto, a evolução tecnológica e social não parou, e o advento da sociedade em rede levou a que alguns desses modelos fossem considerados menos adequados a grande parte dos desafios que esta levantou. Anderson e Dron (Anderson & Dron, 2011) consideram que a educação à distância teve 3 gerações de modelos educativos, distinguíveis pelas suas abordagens pedagógicas, sendo que nos encontramos atualmente a explorar a terceira: o cognitivismo-behaviorismo, o construtivismo social e o conectivismo. Para os autores, diga-se, nenhum dos três modelos é “melhor” ou “pior” que os outros, uma vez que são abordagens pedagógicas que podem cumprir com sucesso distintas finalidades, podendo de facto coexistir.

O conectivismo, proposto por Siemes e Downes, é claramente o modelo pedagógico que mais tenta integrar o conceito de “cérebro global” na aprendizagem, dado que considera a aprendizagem como um “process of connectiong specialized nodes or information sources” (Siemens, 2005), uma abordagem que está em linha com a “sociedade em rede” que Castells (Castells, 1996) postula como sendo o paradigma social em que vivemos.

O conceito de rede é fundamental para o conectivismo. O indivíduo não é um ser isolado do que o rodeira, do outro, e o seu processo de aprendizagem é contínuo. O indivíduo faz portanto parte de uma rede que se vê a cada dia mais reforçada, de mais fácil interconexão, e tem de aprender a lidar com esta nova realidade. A rede oferece o acesso ao conhecimento, o qual também deixou de ser estático, passando a ser dinâmico e mutável. O indivíduo deve agora ser ensinado a reconhecer o valor da rede como “cérebro mundial”, como fonte de conhecimento, deve desenvolver habilidades de recolha e criação de conteúdos, de pesquisa de informação válida e relevante, de ligação a nós da rede que lhe ofereçam algo de válido e ele próprio deve interagir, enriquecer o conhecimento dos outros com o seu próprio conhecimento, com a sua criatividade. O conectivismo propõe uma abordagem nova mas que, no fundo, já estava em aplicação na aprendizagem informal, na sua experiência de todos os dias na rede. O seu grande mérito é, assim, o de sistematizar e fundamentar um modelo pedagógico baseado na concretização das experiências que o dia-a-dia já vinha confirmando como sendo adequadas e aceites, num modelo pedagógico que realmente se adequa à nova realidade e abriu portas a inovações pedagógicas importantes na educação á distância das quais os MOOC são exemplo.

Esta unidade curricular (doravante u.c.) foi leccionada pelo Professor José Mota no âmbito do primeiro semestre do Mestrado em Pedagogia do eLearning (MPeL), edição 6 (ano lectivo de 2012/2013), promovido pela Universidade Aberta.

Uma análise ao Contrato de Aprendizagem, documento orientador da u.c., diz bem da intenção de, num primeiro momento, promover uma abordagem introdutória equilibrada à temática da aprendizagem em rede, através da exploração teórica dos seus conceitos fundadores e práticas estabelecidas, e num segundo momento, já com os conceitos firmemente apreendidos, passar à prática através de dois aspetos de grande importância para a aprendizagem em rede como são os ambientes pessoais de aprendizagem (PLE) e o desenho da aprendizagem (learning desing), passando, no caso do segundo conceito, pela experiência de participação num Curso Online Aberto e Massivo (MOOC) dedicado ao tema do desenho da aprendizagem.

Na minha opinião a estrutura da u.c. foi desenvolvida de uma forma coerente e lógica, tendo estabelecido os alicerces para uma experiência de aprendizagem e crescimento pessoal bastante frutuosa. O facto de iniciar por uma abordagem teórica dos conceitos ligados à aprendizagem em rede e ter obrigado os alunos a, desde logo, procurarem recursos além dos disponibilizados pelo docente, de modo a compilar uma bibliografia comum à u.c., levou a que todos ficássemos imersos no espírito de um modelo de aprendizagem a que não estávamos habituados, mas que sabíamos ser desafiante. Creio que estive bem na escolha bibliográfica que fiz na primeira atividade, com duas referências bibliográficas relevantes sobre o conectivismo (e a sua crítica) e sobre um exemplo prático do papel do professor num curso online, mas na segunda atividade, a produção de um artefacto, não respondi a melhor forma ao desafio. O mesmo se passou, de resto, com a segunda temática da u.c., o PLE, em que as referências bibliográficas foram relevantes e mereceram a aprovação por parte do docente, mas a realização do PLE não correspondeu totalmente aos objetivos propostos. Creio que deixei um pouco a desejar nessas duas temáticas, perdi algumas décimas preciosas na avaliação.

Já na terceira temática, e tendo em conta que não possuo ainda feedback sobre o desempenho, só posso esperar que tenha sido melhor que o das dus temáticas anteriores. A participação no OLDS MOOC foi um pouco confusa, é certo, mas penso que fiz o essencial, tendo obtido os badges de 1 e 3 semanas e produzido evidências de participação. A dada altura pensei em desistir do MOOC e optar pela atividade alternativa que entretanto foi criada, mas as palavras de incentivo do Professor foram o tónico que precisava para me manter firme e combater a adversidade. No final da participação creio que posso dizer que foi uma boa experiência, pois fiquei com um conhecimento prático que ainda não tivera oportunidade de obter, tanto sobre MOOCs como sobre desenho da aprendizagem online. Esta última, como era esperado, foi de importância vital para o desenvolvimento da minha própria atividade online.

No que concerne à experiência de aprendizagem online, devo dizer que como aluno esta é a minha primeira experiência, embora seja instrutor online de Português da escola de línguas multinacional Berlitz. No entanto, aí o processo de aprendizagem é síncrono, fazendo uso de uma aplicação de uma aplicação de web conferencing (AT&T Connect). Já tinha, de facto, utilizado a plataforma Moodle, mas nunca a tinha explorado a fundo como está a acontecer neste momento. Tinha experiência em fóruns e grupos de discussão online, dado que sou utilizador assíduo da Internet desde 1997, quando iniciei a minha licenciatura, e também trabalhei como programador web. Já tinha tido oportunidade de experimentar alguns aspectos da aprendizagem formal através do iTunes U e de participar em alguns webcasts, mas de facto não sabia bem o que esperar do curso e desta u.c.. Devo dizer que o nome da u.c. em si mesmo me trazia à memória os “fantasmas” de cadeiras como “Metodologia do Ensino de (Português e Inglês)”, extremamente teóricas e nada apelativas da minha licenciatura que, na prática, se revelavam de uma utilidade no mínimo discutível, por isso foi com imenso agrado que encontrei nesta u.c. uma estrutura bem planeada com o claro objetivo de proporcionar uma experiência de aprendizagem ao mesmo tempo útil e motivadora.

 

Bibliografia

 

Anderson, T., & Dron, J. (2011). Three generations of distance education pedagogy. IRRODL. Retrieved from http://www.irrodl.org/index.php/irrodl/article/view/890

Castells, M., (1996, second edition, 2000). The Rise of the Network Society, The Information Age: Economy, Society and Culture Vol. I. Cambridge, MA; Oxford, UK: Blackwell. ISBN 978-0-631-22140-1.

Russel, P., (1984) The Awakening Earth: The Global Brain, London: Routledge & Kegan Paul, Ark.

Siemens, G. (2005). Connectivism: A learning theory for the digital age. International Journal of Instructional Technology and Distance Learning, 2(1), 3–10. doi:10.1.1.87.3793

 

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